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A logomarca e o ornitorrinco (conclusão)

Cláudio Moreno

Como vimos nas duas colunas anteriores, a palavra logomarca chegou para ficar, invadindo o campo semântico em que logotipo reinava sozinho. Se vamos incluí-la em nossa dieta ou classifica-la como erva daninha, isso é do gosto pessoal e não cabe discutir - afinal, tenho um amigo que come jiló com quiabo e outro, para minha incredulidade, que distingue o sabor de vários tipos de chuchu... Entre um sábado e outro, porém, um leitor que ainda não está bem convencido perguntou quem deteria este poder quase divino de inventar vocábulos novos; em suma, quem teria competência para conceder (ou negar) a logomarca o direito de existir - a Academia? O sindicato dos gramáticos? Alguma comissão de lexicógrafos? A pergunta que está por trás disso tudo - como nasce uma palavra? - é assaz oportuna, e tenho certeza de que a resposta vai trazer mais um pouco de luz à discussão. Lembro, apenas, que o processo que vou descrever vale para qualquer vocábulo, inclusive para os “antigos”, os confirmados há muitos séculos, que um dia, como todos nós, também foram recém-nascidos.

A fórmula que Epicuro usava para descrever nossa curta passagem por esta existência - "Eu não era; fui; não sou mais" - pode ser aplicada integralmente às palavras. Até um determinado momento, o léxico de nossa língua não incluía em suas listas o item logomarca. É praticamente Impossível determinar este "quando", já que só em textos escritos podemos fazer uma datação razoavelmente confiável; o que sabemos é que, num belo dia (pode parecer um tanto metafísico, mas não é), ela começou a ser usada, tendo saído, obrigatoriamente, de uma das duas fontes vivas do léxico: ou foi criada aqui dentro, ou veio de fora, importada de uma língua estrangeira. Como vimos no artigo anterior, há controvérsias sobre qual desses processos nos trouxe esta palavra; enquanto alguns a consideram uma criação “tupiniquim", prefiro ver nela um decalque do Inglês logomark - que tem a estrutura semelhante à de trademark, hallmark, wordmark, postmark, etc., em que mark é o núcleo e o elemento à esquerda é o especificador, como sói acontecer naquele idioma. Mas vamos adiante.

Nessa fase, em vez de dizer que "nasce o vocábulo", acho mais adequado dizer que acabou de nascer “um broto vocabular”, o qual, à semelhança dos brotos vegetais, poderá ou não encontrar terreno fértil para vingar. O estranho verbo desaplaudir, por exemplo, também veio à luz (até hoje, só o encontrei em Mário de Andrade: "Não fazem mais do que se escravizar a um vício reinol e europeu, que já levava Bougainville a desaplaudir as representações de brancaranas nos teatros do Rio de Janeiro"), mas me parece um broto mirrado, inviável, fadado a secar e desaparecer, como ocorreu, aliás, com milhares de “promessas" desse tipo, que deixam aqui e ali, em textos dispersos, os vestígios de sua efêmera existência. Nesse sentido, é indiscutível a vitalidade de logomarca, que conquistou verbete em nossos melhores dicionários e está batendo, como qualquer um pode constatar, uma marca de sete dígitos no Google.

Ninguém a autorizou a existir; ela existe simplesmente porque foi "criada" (prefiro esse termo a "inventada"), e os falantes do português gostaram dela e a adotaram para sempre (ou até o dia em que entre em desuso). Foi só isso - aliás, exatamente o que ocorreu, há algumas décadas, com logotipo, que também não existia e foi criada e consagrada pelo uso. Agora logotipo coexiste com a recém-chegada, o que nos obrigará a reacomodar, ao menos na terminologia técnica, a divisão de territórios entre esses dois vocábulos. Como sempre acontece nesses casos, só há dois desfechos possíveis para disputas assim: ou uma das formas sufoca a outra e a força a se aposentar, ou elas dividem o património semântico e passam a ter significados bem específicos. No presente caso, acho que por muito tempo teremos o convívio das duas palavras; cabe, portanto, aos especialistas em design e publicidade (e não aos dicionaristas ou professores de Português) a tarefa de traçar o limite mais claro possível entre elas, a fim de que a imprecisão dos conceitos não as torne completamente inúteis.

Se lhe falta a tolerância necessária para aceitar essa e outras criações que a língua haverá de fazer, caro leitor, lembre que a Natureza plantou na Oceania a figura improvável do ornitorrinco, animalzinho esdruxulo que tem pelo de castor e bico de pato, põe ovos, amamenta seus filhotes e tem um ferrão venenosíssimo nas patas traseiras. No início, os naturalistas suspeitaram que um animal tão incoerente fosse uma grande fraude científica, mas a grande quantidade que nada nos rios da Austrália logo os convenceu do contrário. Hoje, segundo Umberto Eco, o ornitorrinco serve para nos alertar para o fato de que sempre vai haver, bem perto de nós, alguma coisa que, embora não se enquadre nos padrões a que estamos habituados, tem todo o direito de existir.


Sábado, 26 de fevereiro de 2011.



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